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[Publicado originalmente no Caderno Mais do jornal "Folha de S. Paulo" em março de 2005].
Howard Gardner é um psicólogo famoso da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Chefia o “Projeto Zero”, um grande programa de investigação que, ao longo dos anos tem procurado descobrir os mecanismos da criatividade e da aprendizagem para estudar reformas curriculares nas escolas. Árduo defensor do cognitivismo, seus estudos concentraram-se, nos últimos tempos, sobre a natureza da inteligência, mostrando que sob este termo abriga-se uma pluralidade de faculdades e não apenas algo que poderia ser captado pela métrica dos testes de Q.I.
Desta vez, Gardner brinda-nos com um outro tipo de estudo: saber o que pode mudar as mentes, transformá-las, seja na escala de uma pequena empresa, seja na escala da liderança de uma nação. Convencimento, mudança, persuasão: estes são os temas principais de seu novo livro que ora chega em tradução para o português. Sua idéia central é formular uma ciência da persuasão, algo que ultrapasse os limites das idéias populares que cercam este conceito. É preciso estudar porque alguns conseguem mudar a mente, o modo de pensar dos outros, tornando-se seres aglutinadores que levam a mudanças na maneira de enxergar o mundo e na maneira de agir.
Trata-se, num certo sentido, de incluir a velha retórica no âmbito da ciência psicológica, uma tarefa cheia de riscos que, por vezes, resvala no linguajar indesejável da auto-ajuda. Mas será este um defeito apenas do livro de Gardner? Ou uma vicissitude enfrentada por todos aqueles que se lançam à tarefa inglória de fazer psicologia? Lembro-me aqui da sentença do velho mestre francês Pierre Gréco, freqüentemente parafraseada pelo meu colega Bento Prado Jr,: “quando se faz psicologia, parece-nos que não estamos fazendo ciência, e quando fazemos ciência, quase sempre temos certeza de não estar fazendo psicologia”.
E, por vezes, lendo as páginas de “Mentes que Mudam” escritas num estilo extremamente agradável, não pude deixar de lembrar-me de um livro que meu pai me dera na minha adolescência, “Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas” do “self-made man” americano Dale Carnegie – um clássico cuja difusão ainda deve continuar através de suas inúmeras re-edições tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Ao ler o texto de Gardner, não pude tampouco deixar de me indagar acerca dos riscos da tarefa que ele empreende: riscos ideológicos e políticos. Afinal, a linha que separa a idéia de mudança das mentes aproxima-se perigosamente da manipulação das pessoas ou das massas. Não é a toa que no seu livro ele se refira a estadistas de importância histórica inegável, que mudaram épocas e nações, como, por exemplo, Gandhi. Mas por que não falar de contra-exemplos, como Hitler, Mussolini ou Goebels, figuras que certamente só poderiam aparecer nos nossos livros como exemplos de psicopatologia, de uma aberração da capacidade de transformar as mentes? Ou do perigo ainda persistente dos aparelhos ideológicos que moldam a mente mediana, este horror que nos circunda e sobre o qual não podemos deixar de nos referir com o mesmo desprezo sutil que perpassa as análises dos frankfurtianos?
A mente média ou mente mediana, a geléia geral insidiosa e perturbadora é o tema do livro de Curtis White, que li simultaneamente ao texto de Gardner. White põe-se a refletir sobre o que teria criado essa coisa tão desagradável, identificando três causas que estariam na raiz deste fenômeno: a ortodoxia retrógrada da universidade, a pobreza da mídia e a política pedestre dos nossos estadistas rústicos guiados apenas pela contabilidade das nações. Não sei exatamente o que Curtis White faz, se é psicologia social, sociologia, história das mentalidades ou tudo ao mesmo tempo. Por vezes, sua revolta contra a mente mediana me faz lembrar de um livro que li há anos, “El Hombre Medíocre” do pensador argentino José Ingenieros, injustamente esquecido.
Mas o que realmente causa estranheza no livro de White é notar que aqueles que há pouco tempo se rebelavam contra o mundo da cultura, alegando que este era domínio de elitistas europeus, brancos e machos, são os mesmos que agora se insurgem contra a cinzentura da banalização e da promoção sistemática da mediocridade. A cultura americana –um misto de Disneylândia e shopping center - não consegue mais conviver consigo mesma, com o desencantamento e o pós-moderno politicamente correto que agora se tornou uma cobra que devora sua própria cauda, como no mito do Oroborus.
Cabe-me agora dizer algumas palavras sobre o terceiro livro que chegou a minhas mãos, o “Mente e Cérebro” de Lauren Slater. Que o leitor(a) me desculpe o salto temático abrupto; não é fácil apresentar três livros em poucos parágrafos. O título verdadeiro deste livro é “A Caixa de Skinner” (Skinner´s Box). Aliás, o texto começa e termina com um tributo a Skinner, o maior psicólogo americano do século XX e também o mais repudiado no trópico tupiniquim. Infelizmente, este tributo acaba incorrendo no pecadilho daqueles que só conhecem Skinner a partir da literatura secundária: caricaturizar o behaviorismo radical como uma psicologia sem psiquismo. Uma visão anedótica, que transpira um certo humanismo de botequim ou uma certa etiqueta pseudo-intelectual que ensina a torcer o nariz para o behaviorismo e para o positivismo sem saber do que se está falando.
A despeito deste deslize, Slater levanta desde o inicio de seu livro uma questão instigante: será a psicologia uma ciência? Para tentar responder esta pergunta a autora descreve dez experimentos psicológicos importantes, descritos em linguagem simples, quase coloquial. Os mais interessantes são os de Kandel, sobre as bases neurais da memória e o de Rosenhan que mostra a fragilidade do diagnóstico psiquiátrico, ainda baseado na linguagem psicológica popular dos pacientes. Isto torna o texto de Slater particularmente inquietante, uma espécie de guia que pode servir para um jovem se decidir se estudará psicologia na faculdade, essa disciplina metade metáfora, metade estatística e que acaba ficando na terceira margem do rio. No final, a autora sugere uma resposta para sua indagação inicial: a psicologia é mais filosofia do que ciência. Que todos se divirtam – seriamente, é claro.
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