[publicado originalmente com o título "Em busca da integração" no Jornal de Resenhas da Folha de S. Paulo em janeiro de 1999].
Nascida de uma rejeição ao behaviorismo, a Ciência Cognitiva tem pouco mais de 40 anos. O objetivo desta disciplina é o estudo da mente tomando como ponto de partida uma analogia entre funcionamento mental e programas computacionais. Um projeto essencialmente interdisciplinar, que torna a Ciência Cognitiva a intersecção entre várias outras disciplinas, como a Psicologia, a Linguística, a Ciência da Computação, a Filosofia e a Antropologia.
Delinear os contornos desta novíssima disciplina é a tarefa à qual se propõe Paul Thagard em seu livro introdutório, recentemente traduzido para o português. Em pouco mais de 200 páginas, o autor busca oferecer uma visão unificada deste nova tentativa de fazer uma ciência da mente. Mas esta não é uma tarefa fácil. Nestas quatro décadas de existência oficial, a Ciência Cognitiva já viveu várias peripécias e muita dispersão teórica.
Esta trajetória se inicia pela proposta de uma analogia entre cérebros e mentes de um lado e entre computadores digitaise programas computacionais de outro. Neste esfôrço para se transformar numa ciência paradigmática e num novo horizonte para a Psicologia, a Ciência Cognitiva identificou conhecimento com representação mental, mentes (e as vezes cérebros) com processadores de informação. Mas nunca se chegou a um consenso acerca do que seriam essas representações mentais e como seria feito esse processamento de informação.
Na primeira parte de seu livro, Thagard explora esta falta de consenso, e o utiliza para apresentar esta pluralidade de perspectivas. Sua abordagem não é histórica e sim sistemática, mas acaba percorrendo as diversas maneiras pelas quais os cientistas cognitivos tentaram definir o que seja a representação mental e o processamento de informação que ocorreria nas nossas mentes. A exposição é bem minuciosa, partindo da idéia de que o pensamento poderia ser concebido seja como um conjunto de regras lógicas, seja como um conjunto de regras do tipo “se…então” (como ocorre nos programas de computador) ou como um hierarquia de conceitos e esquemas. Raciocínios analógicos e o papel das imagens no pensamento são também analisados por Thagard. Todas estas variedades da representação mental compõem aquilo que o autor chama de CRUM ou “Compreensão Computacional-Representacional da Mente” (“Computational-Representational Understanding of Mind”).
Além de minuciosa, a exposição é bastante didática. Todos os capítulos obedecem a um mesmo tipo de estrutura, onde se discute o poder computacional, a plausibilidade psicológica e a plausibilidade neurológica de cada uma das alternativas apresentadas para se conceber o que seria a representação mental e o pensamento humano. Todos os capítulos são seguidos de um resumo, um questionário e indicações de leitura para aqueles que queiram se aprofundar mais em algum tópico. Em nenhum momento esta exposição se torna excessivamente técnica ou pesada para o leitor leigo.
Mas é a segunda parte do livro que desperta maior curiosidade. Após um capítulo de “avaliação e revisão” da CRUM, Thagard inicia uma outra trajetória, desta vez questionando os grandes desafios a serem enfrentados por este tipo de visão da natureza dos processos mentais. Timidamente, o autor vai nos introduzindo ao problema da relação entre mente e cérebro e, como a ausência de uma solução para este último ainda constitui uma ameaça para o projeto da Ciência Cognitiva. Uma ameaça que, aliás, se desdobra em vários aspectos. O primeiro deles consiste no fato de a CRUM ser uma descrição abstrata dos processos mentais, como se estes fossem imunes às emoções. Esta descrição abstrata, ao modo de um software de computador, exclui também a possibilidade da CRUM nos fornecer uma teoria da consciência. Outro grande desafio para a CRUM é saber até que ponto o corpo e o meio ambiente influem e determinam os processos cognitivos e se a cognição poderia ser concebida como um processo intrínseco à mente ou ao cérebro.Negar o papel das emoções, da consciência e do meio ambiente equivaleria a excluir da CRUM boa parte da pesquisa atual em neurociência e em robótica, cujas propostas são analisadas por Thagard na segunda parte de seu livro. Das críticas e desafios enfrentados pela CRUM Thagard tira a conclusão de que esta não precisa ser rejeitada, mas ampliada e suplementada. A CRUM ampliada transformar-se-ia, então, na CRUMBS, ou seja, Compreensão Computacional Representacional Biológica-Social da Mente (“Computational Representational Understanding of Mind, Biological-Social”). A proposta de Thagard é essencialmente ecumênica, o que, aliás, é muito louvável. Contudo, ele não nos mostra como a integração de perspectivas tão distintas e incompatíveis poderia ser feita. Seu ecumenismo acaba se transformando num puro e simples sincretismo.
A Ciência Cognitiva, como todas as tentativas de tornar a Psicologia uma ciência, não sabe se deve privilegiar a mente, o cérebro ou o comportamento na busca por um ponto de partida. Esta oscilação não é típica da proposta de Thagard, nem tampouco da Ciência Cognitiva à diferença de outras escolas psicológicas. É o resultado de incorrer na ilusão de que seria possível fazer Psicologia sem uma discussão de seus compromissos filosóficos. A Ciência Cognitiva não pode se resumir a ser apenas uma discussão filosófica, mas tampouco pode prescindir desta. Seria pueril afirmar que precisamos resolver o problema mente/cérebro para começar a fazer Psicologia, Mas seria também pueril afirmar que não precisamos deste tipo de discussão ou que a Filosofia poderia contribuir muito pouco para a Ciência Cognitiva como já o fizeram vários autores (inclusive brasileiros!) que parecem ter esquecido da importância de obras de filósofos como Putnam e Dennett.
A tradução do livro de Thagard é bastante confiável. Nota-se que a tradutora optou pelo termo “explanação” em vez de “explicação” no decorrer do texto, o que revela uma grande acuidade. Não seria possível detectar erros nesta tradução, embora, em alguns momentos, transpareça uma falta de familiaridade com têrmos específicos. O que, aliás, é perfeitamente desculpável, em se tratando de um assunto ainda tão pouco conhecido no Brasil.
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