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Sujeito em Primeira Pessoa - publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em maio de 2004.
David Chalmers e Thomas Nagel são os dois filósofos da mente contemporâneos que, remando contra a maré, resolveram defender seriamente o dualismo mente-cérebro. Neste livro publicado em 1986 e agora traduzido para o público brasileiro, Nagel aborda uma das questões centrais que motivam sua posição dualista: a irredutibilidade da perspectiva em primeira pessoa para uma perspectiva em terceira pessoa. Em outras palavras, a experiência subjetiva seria irreconciliável com o discurso da ciência, sempre público e em terceira pessoa. A experiência subjetiva é incompatível com a visão científica do mundo que tem uma perspectiva definida; a visão do sujeito tem a peculiaridade de não estar em nenhum lugar definido porque nos acompanha e pode estar em todos os lugares. A visão subjetiva é como um olho desencarnado que olha para o mundo, uma visão a partir de lugar nenhum e que paradoxalmente, poderíamos dizer que está “em toda parte e nenhuma”, lembrando do título de um famoso artigo de Merleau-Ponty.
Logo nos primeiros parágrafos de seu livro o autor nos afirma que seu livro “trata de um único problema: como combinar a perspectiva de uma pessoa particular, inserida no mundo, com uma visão objetiva desse mesmo mundo, em que a própria pessoa e seu ponto de vista estão inclusos” (p.1). A tensão entre o subjetivo e o objetivo e a natureza da experiência subjetiva e seu lugar no mundo parecem ser temas recorrentes na obra de Nagel, cujo início pode ser situado em 1974, com a publicação de seu artigo “What is it like to be a bat?” (O que é ser como um morcego?) que o celebrizou nos meios acadêmicos e filosóficos americanos. Neste artigo ele argumentava em favor da idéia de que nossa linguagem – especialmente a linguagem intersubjetiva da ciência – seria incapaz de captar a natureza última da experiência subjetiva, no caso, o ponto de vista que um morcego tem acerca do mundo. Por mais que estudássemos a fisiologia do olho do morcego não poderíamos saber o que é ter suas experiências visuais, não poderíamos vivenciá-las ou assumir a perspectiva de mundo do morcego; poderíamos, no máximo, imaginá-las. No nosso caso, deparamos com uma experiência consciente que é imediata, todos sabemos que a temos, mas ela é, ao mesmo tempo, irredutível à linguagem, que, incapaz de descrevê-la plenamente, apenas resvala nela, pois cada um de nós tem uma perspectiva única sobre o mundo.
Em nenhum momento Nagel defende um dualismo cartesiano, ou seja, a doutrina que postula a existência de uma substância imaterial diferente do mundo físico. Contudo, no capítulo III percebemos sua inclinação em favor da chamada teoria do aspecto dual, ou seja, a proposta de um dualismo de propriedades segundo o qual uma única e mesma porção de matéria, qual seja, o cérebro, pode instanciar propriedades físicas e, além destas, propriedades mentais ou estados subjetivos.
No capítulo sobre mente e corpo, onde Nagel expõe a teoria do aspecto dual encontramos também uma interessante teoria acerca da natureza da identidade pessoal. Trata-se de um ponto de vista bastante original, baseado na proposição “Eu sou meu cérebro”. O cérebro, por ter propriedades físicas e mentais, de acordo com a teoria do aspecto dual, permite conciliar os aspectos interno e externo envolvido na construção de nossas identidades pessoais. Do ponto de vista externo ele é garantia de continuidade temporal para minhas experiências subjetivas, mesmo quando estas estão sujeitas a inesperadas interrupções de memória. Do ponto de vista interno é ele que garante uma referência, mesmo que inescrutável, da idéia de um “eu subjetivo”. “Eu sou meu cérebro” faz com que a sucessão de experiências subjetivas torne-se minha – que “pertença” a um eu.
Os outros capítulos do livro de Nagel podem ser lidos como a continuação desse longo exercício filosófico de mostrar o aspecto irreconciliável das perspectivas subjetiva e objetiva. O autor percorre vários temas filosóficos importantes como, por exemplo, a questão da natureza do conhecimento, as relações entre pensamento e realidade, etc. No capítulo sete é discutida a questão da liberdade humana, ou seja, do livre arbítrio como base para a moralidade e para a responsabilidade. A liberdade também é considerada a partir de uma duplicidade de perspectivas subjetiva e objetiva, da liberdade (autonomia) própria e da liberdade dos outros (concebida em termos de responsabilidade). O determinismo da ordem natural, enquanto perspectiva objetiva é apresentado num confronto com a liberdade e autonomia que caracterizam nossa perspectiva acerca do mundo e de nossas ações.
Há uma ambigüidade que percorre o texto de Nagel e faz com que o leitor oscile, por vezes, entre o fascínio e o desapontamento. O livro fascina por ser bem escrito, com uma prosa filosófica leve e agradável e por abordar temas instigantes. Não há dúvida que a questão da perspectiva de primeira pessoa e da natureza da experiência consciente continua sendo o ponto cego das filosofias da mente materialistas. Estas continuam se valendo de promessas da neurociência - promessas que ainda não foram cumpridas - o que sugere que problemas como, por exemplo, o da natureza da consciência, continuarão por muito tempo sendo o último bastião dos dualistas. Tampouco podemos duvidar que a experiência subjetiva nos apresenta aspectos inefáveis, que escapam da teia da linguagem. Como poderíamos, por exemplo, descrever o gosto do sal para alguém que nunca o experimentou? Certamente qualquer descrição seria redundante e, no máximo, o que poderíamos dizer é que o gosto do sal é “salgado”. A descrição aproximada do gosto do sal pressupõe, como pano de fundo, uma experiência comum partilhada por duas pessoas, sem o que ele permaneceria inescrutável – tão inescrutável quanto as experiências subjetivas do morcego.
O desapontamento surge quando consideramos a proposta dualista de Nagel. O aspecto mais problemático do dualismo é o fato de ele ser um programa filosófico sem agenda. Ou seja, tudo o que o dualista pode fazer é tentar provar a existência de uma assimetria entre o físico e o mental – mesmo que este seja uma propriedade de algumas coisas físicas como supõe a teoria do aspecto dual. “O mental não é redutível ao físico” – esta seria a única proposição que comporia as teorias dualistas. A mente seria excluída do domínio da ciência e nada poderíamos afirmar acerca da natureza do mental além do fato de ele ser distinto da matéria.
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