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[Publicado no Caderno Mais! da Folha de S. Paulo em março de 2006, sob o título "O Chomsky Fundamental].
Por uma iniciativa pioneira da editora da UNESP o público brasileiro já pode contar com a tradução deste livro de Noam Chomsky, obra sobre temas lingüísticos, mas que ao mesmo tempo toca em temas centrais da filosofia da mente e da ciência cognitiva. É uma coletânea muito bem vinda, que assegura ao autor, mais uma vez, o lugar de um dos maiores lingüistas da contemporaneidade, depois de suas intermináveis incursões pelos campos da política e do discurso politicamente “engagé”.
Chomsky explora as fronteiras filosóficas e epistemológicas da lingüística. A linguagem sempre constituiu um grande desafio para este tipo de problema, pois não sabemos de que lado situá-la, se do lado da psicologia ou da biologia, no físico ou no mental. É um debate antigo que se arrasta desde a época cartesiana, quando Géraud de Courdemoy escreveu seu famoso “Discours Physique de la Parole” questionando a verdadeira dimensão do fenômeno lingüístico.
Chomsky vai retomar este assunto com vigor, mostrando em que medida a filosofia da mente e a filosofia da linguagem encontram-se intimamente entrecruzadas. E é precisamente o Chomsky-filósofo aquele que desperta mais interesse para quem lê este livro. Mais do que isto, nele encontramos um esforço para integrar a lingüística com outras disciplinas, estabelecendo interfaces com a genética e com as outras ciências, notando-se, porém, que este esforço não deve ser visto por um prisma reducionista.
Retomando o projeto da “Lingüística Cartesiana”, publicada em 1966, Chomsky reafirma o inatismo bem como a necessidade de compreensão das bases cerebrais da linguagem. A linguagem é fenômeno biológico e pode ser estudada a partir de uma perspectiva internalista, ou seja, na qualidade de fenômeno interno e psicológico, retirando-se a ênfase excessiva de seu estudo como manifestação intersubjetiva e social. Esta é a perspectiva do estudo da língua-I, que percorre todos os ensaios do livro de Chomsky. É esta uma das teses mais polêmicas que encontramos no livro, tese que reverte uma tendência que encontramos na lingüística nas últimas décadas. Para afirmá-la, Chomsky polemiza com lingüistas e filósofos da linguagem contemporâneos, como por exemplo, Putnam e Quine. A linguagem pode ser abordada em termos de cálculos sobre representações internas e mentais, o que contraria frontalmente as teses destes filósofos, baseadas em posições externalistas e intersubjetivas.
Dificilmente encontraremos um livro sobre a natureza da linguagem tão polêmico quanto este. Pois é difícil imaginar que a linguagem possa se constituir como uma espécie de software solitário da mente, sem a participação de uma comunidade que a fale. Difícil também é imaginar que a linguagem não requer, para sua constituição, a interação histórica entre os indivíduos de uma comunidade. Que a lingüística tem colocado peso excessivo nestes fatores não resta dúvida, e atenuá-los parece ser uma tarefa bastante desejável. Neste sentido, o inatismo ressoa como algo extremamente bem vindo no cenário contemporâneo da ciência cognitiva, sobretudo após o aparecimento de livros instigantes neste sentido, como é o caso de “Tabula Rasa” de Steven Pinker.
Vale a pena ressaltar que muitos dos temas tratados nesta obra não constituem realmente novos horizontes para o pensamento lingüístico e sim o coroamento de várias décadas de reflexão de Chomsky sobre a natureza da linguagem. E se é verdadeira a afirmação de John Searle de que a filosofia da mente é um ramo da filosofia da linguagem, pois a explicação do mental passa necessariamente pelo lingüístico, podemos dizer que a obra de Chomsky segue esta tradição e a honra perfeitamente, ao colocar a lingüística no centro do universo interdisciplinar da ciência cognitiva. Obra que, é preciso ressaltar, “last but not least”, cuja tradução para o português é esmerada e confiável.
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