Mente e Mundo
mcdowellPara a filosofia moderna, é difícil traçar um quadro satisfatório do lugar que as mentes ocupam no mundo. Este livro de McDowell é admirável, não apenas pela penetração que demonstra e pela iluminação que oferece, mas também pela profunda sensibilidade que tem para com a história do pensamento em geral, e da filosofia em particular, desde a Antigüidade até os dias de hoje.
Oferece uma abordagem das fontes intelectuais mais profundas dos problemas constitutivos da filosofia 'moderna'. Sutil e penetrante, num estilo sucinto e cheio de elegância, se o livro nem sempre é de leitura fácil, isto se deve à profundidade e à dificuldade dos problemas com os quais o autor se debate, bem como à ambição da tarefa que propôs a si mesmo: redesenhar nossa imaginação filosófica, e nosso sentido do espaço das possibilidades intelectuais. Todos os que chegam ao final do livro têm a sensação de que percorreram um território filosófico novo. Velhos problemas recebem um tratamento surpreendente, original e profundo. Vale a pena conhecer o panorama aberto por esta obra.
 

Por que o pensamento de John McDowell tomou-se uma referência para filósotbs do mundo todo? Em 2003, a editora Routledge publicou um volume dedicado ao estudo de sua obra (Nicholas H. Smith, Hg.: Reading McDowell. On Mmd and World. London:

Routledge. 2003), e diversos colóquios de filosofia no mundo todo têm discutido suas idéias. Antes da publicação de Mmd and World, em 1994, McDowell era conhecido apenas por especialistas. Iniciou a carreira refazendo e publicando uma tradução do Teeteto de Platão e trabalhando com Gareth Evans em Pittsburgh, onde leciona até hoje. Foi ele o encarregado de editar a principal obra de Evans, The Varieties of Reference, após a morte do autor. A partir da década de 80. McDowell começa a publicar uma série ininterrupta de artigos a respeito da ética aristotélica e da filosofia de Wittgenstein. Os artigos marcaram época. Até hoje, ninguém pode escrever sobre qualquer um desses dois temas sem estar familiarizado com aquilo que McDowell disse a respeito deles. A grande virada de sua carreira, no entanto, viria com Mmd and World. Com esse livro, ele deixava de ser apenas um historiador da filosofia para entrar na arena filosófica propriamente dita.

O livro não é de leitura fácil. Vencer suas quase duzentas páginas exige concentração e paciência. McDowell tem um modo muito peculiar de escrever. Seu estilo lembra um pouco o de Kant - sentenças longas, cheias de alusões filosóficas, mas esculpidas com muita precisão, com muita consciência do sentido exato de cada termo. Freqüentemente o leitor é obrigado a ler cada sentença duas vezes, marcando o sujeito. fazendo anotações e diagramas num papel, até compreender o sentido exato daquilo que McDowell está dizendo. Todos que chegam ao final do livro. porém. têm a sensação de que percorreram um território filosófico novo. Velhos problemas recebem um tratamento surpreendente, original e profundo. Vale a pena darmos uma espiada no panorama aberto pela obra.

"Meu objetivo", diz McDowell na Introdução do livro, "é propor uma abordagem, à maneira de um diagnóstico, de algumas das inquietações características da filosofia moderna - inquietações cujo centro estaria, como sugere o título, na relação entre mente e mundo." Conforme a leitura do livro deixa claro, o alvo do autor é um pouco mais específico. O que se deseja saber é de que modo os conceitos fazem a mediação entre nossa "mente" (ou, mais exatamente, nossa linguagem) e o mundo. A capacidade de utilizar conceitos é fundamental para que possamos falar, argumentar, duvidar, supor, conhecer e assim por diante. McDowell tenta mostrar que esta mediação só é inteligível se admitirmos algo que pode parecer surpreendente. É preciso admitir, segundo ele, que os conceitos não estão envolvidos apenas em atividades intelectuais superiores, como as que citamos acima. Nossa experiência sensível já tem de ter um caráter conceitual. Não vemos apenas com os olhos, nem escutamos apenas com os ouvidos. Sem conceitos, aquilo que chamamos de "ver"e de "ouvir" seria impossível.

Isto é surpreendente, por um lado, e não é propriamente novo, por outro. Kant já havia dedicado algumas das páginas mais famosas da Crítica da Razão Pura à demonstração de que um grupo central de conceitos (os "conceitos puros do entendimento") estão inevitavelmente envolvidos na intuição sensível. Toda a filosofia platônica, para recuarmos ainda mais no tempo, está estruturada em torno da mesma tese: sem conceitos ("idéias"), o fluxo sensível seria amorfo e inapreensível. Isto pode parecer surpreendente, por outro lado, quando lembramos que bebês, cachorros e lagartos também não vêem e escutam como nós, e nenhum deles parece estar dotado de nenhum tipo de atividade conceitual. É claro que podemos escapar a objeções deste tipo, dizendo que bebês, cachorros e lagartos não vêem nem escutam do mesmo modo que um ser humano adulto. Um bebê não vê cores como nós vemos, pois não é capaz de inserir aquilo que vê nas teias conceituais em que nós as inserimos. Mesmo deixando de lado objeções deste tipo, porém, a idéia de que toda a nossa percepção seja de natureza conceitual teve de enfrentar uma série de problemas propostos pela epistemologia americana nos últimos 50 anos. É neste ponto que o livro de McDowell dá sua contribuição mais importante e original. Ele nos oferece um modo de nos desviarmos desses problemas propostos pela filosofia contemporânea e de encararmos a experiência como um produto da colaboração do mundo com nossos conceitos.

A noção básica do livro de McDowell é emprestada a Wilfrid Sellars, um dos autores contemporâneos que ele pretende "neutralizar" com sua alternativa. Trata-se da noção de "espaço das razões". Falando de maneira geral, está no espaço das razões tudo aquilo que pode ser justificado - uma crença, um comportamento eticamente relevante, uma obra de arte, e assim por diante. Se a experiência for encarada como algo que só pode justificar outras coisas, mas não pode ser justificada, então ela está fora do espaço das razões. Se a experiência estiver fora do espaço das razões, diz McDowell, ela não pode ter natureza conceitual, pois toda aplicação de conceitos deve poder ser justificada de algum modo. Devemos, então, propor um modo de conceber a experiência no interior do espaço das razões, que não a torne "invulnerável" ao mundo, como ele gosta de dizer. Deve haver um sentido em que a experiência pertence ao universo conceitual do homem, mas é preciso que esse sentido não a impeça de estar diretamente vinculada ao mundo exterior à "mente".

Como McDowell promove essa conciliação entre o mundo e a mente, sem anular nem um lado nem o outro, é algo que não pode ser contado em poucas palavras. Neste ponto, a leitura do livro é insubstituível. É fácil perceber, porém, a importância do tema tratado e a profundidade com que McDowell formula questões tão antigas quanto a própria história da filosofia. Em razão disto, a publicação de uma tradução para o português de Mind and World deve ser saudada como um evento da maior importância no cenário cultural de nosso país.

A tradução foi deixada a cargo de João Vergílio G. Cuter, professor de Lógica e Filosofia da Linguagem da USP, e terá um estudo introdutório escrito por Hilan Bensusan, professor da UnB que vem pesquisando a obra de McDowell há bastante tempo.

 

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