Brainstorms
 

dennettSOBRE BRAINSTORMS DE DANIEL DENNETT

João de Fernandes Teixeira

Jornal Folha de São Paulo, Caderno Mais! 20 de agosto de 2006

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Antes tarde do que nunca. Finalmente chega ao público brasileiro a tradução do livro mais importante do filósofo americano Daniel Dennett. Publicada no início da década de oitenta, ele apresenta sua teoria da mente - que servirá de fio condutor para toda sua produção filosófica posterior. Embora a ordem na qual foram publicadas as traduções brasileiras de Dennett não deixe transparecer, há dois temas centrais na filosofia dennettiana: mente e consciência. Enganam-se aqueles que supõem serem suas maiores preocupações a evolução (A Idéia Perigosa de Darwin), a cognição animal (Tipos de Mentes) ou até, mais recentemente, sua reflexão sobre a natureza da religião, em obra ainda não traduzida.

O Dennett  de "Brainstorms"é o discípulo e herdeiro das teorias de Ryle e de Quine. O título deste livro já é, em si, instigante. "Brainstorm" é uma palavra difícil de traduzir e designa a surpresa acachapante do "insight". E, de fato, o que encontramos ao percorrer esta coletânea são ensaios intempestivos sobre temas diversos da filosofia da mente e da psicologia, passando pelo sonho, pela consciência, pela crítica impiedosa de Skinner (de quem Dennett quer, estrategicamente, manter distância) além de muitos outros.

 

Há dois ensaios que condensam a originalidade e a ousadia da teoria da mente de Dennett. O primeiro é "Código cerebral e escritura mental" (por onde sugiro que o leitor deva começar). Encontramos aqui uma nova abordagem ao problema mente-cérebro. Na ótica de Dennett enfrentamos a tarefa de tradução entre duas linguagens: o código do cérebro e o vocabulário psicológico. Realizá-la tem sido uma vã e inútil expectativa dos filósofos da mente. Quine já teria demonstrado que a tradução de uma linguagem desconhecida é sempre sujeita à indeterminação e resiste a qualquer tentativa de estabelecer uma correspondência um-a-um entre seus termos.

O mesmo ocorreria entre tempestade elétrica (código cerebral) e estados mentais, ou entre o software de um computador e os estados de seu hardware (expressos na chamada linguagem de máquina, a seqüência de 0 e 1). Começar uma teoria da mente tentando resolver o problema mente-cérebro é o mesmo que apostar na existência de uma pedra da roseta inalcançável. Com isto desmonta-se um mito que ainda habita o horizonte de filósofos e, mais recentemente, dos neurocientistas, qual seja, o mito do neurocriptógrafo, do construtor de um cerebroscópio, que, se ligado ao cérebro, leria seus pensamentos. Uma pena para os que conduzem CPIs e também para os delegados de polícia que poderiam, usando este aparelho, economizar horas a fio em interrogatórios e acareações.

            Ora, se a mente não é redutível ao cérebro, que podemos dizer acerca de sua natureza? O mental é uma ficção útil, muito mais um artifício ou construção nossa que uma realidade tangível sempre dotada de correlatos neurais. Este é o tema do ensaio "Sistemas Intencionais" que também recomendo ao leitor. Nele Dennett sustenta também que o mental não é nem privilégio nem exclusividade dos humanos. Robôs e outros sistemas artificiais podem ter mentes, desde que seu comportamento seja tão complexo que, para descrevê-lo tenhamos de nos valer de vocabulário psicológico, ou seja, atribuir a eles intenções, crenças, desejos etc.. 

O vocabulário psicológico é designado por Dennett como "psicologia popular". Adotá-lo, ou seja, valer-se da psicologia popular para tornar comportamentos de humanos ou robôs inteligíveis constitui uma poderosa estratégia evolucionária para facilitar nossa sobrevivência e convivência com seres que exibam comportamentos complexos - uma estratégia que situa o mental mais nos olhos do observador do que no mundo, o que lhe confere uma realidade virtual.

            Publicar esta tradução é um passo vital para a filosofia da mente no Brasil, onde ainda engatinhamos nesta área, possivelmente por preconceitos eurocêntristas. Parabenizo meu colega Luiz Henrique Dutra, pela sua tradução esmerada. O estilo de Dennett é permeado por chistes e trocadilhos, o que torna sua tradução um desafio.

 

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