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[Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, janeiro de 1995).
Em "As tecnologias da Inteligência" (Pierre Levy) e "Imagem-Máquina" (André Parente) filosofia se rende a novos temas.
Há alguns anos, quando encontrei o filósofo norte-americano Roderick Chisholm, perguntei a ele o que achava da Inteligência Artificial e lembro-me que ele respondeu: "Ah! Essa é uma teoria segundo a qual até uma caixa registradora pode ter estados mentais". A resposta irônica certamente queria desfazer uma visão mistificada que muitas pessoas têm em relação a essa disciplina e às próprias potencialidades da tecnologia. Do outro lado do espectro há aqueles (em geral os pseudo-intelectuais do tipo blasé) que têm verdadeiro horror da tecnologia e a identificam com uma verdadeira caixa de Pandora da qual só poderiam emergir males e moléstias para a humanidade. Mas não é nenhuma dessas posições que encontramos nos livros de Pierre Levy, As Tecnologias da Inteligência, e de André Parente, Imagem-Máquina.
Neles encontramos um esforço autêntico para pensar o significado e as conseqüências da Inteligência Artificial e das outras realizações da informática. È um esforço para pensar os objetos novos com os quais essas tecnologias passaram a povoar o mundo nos últimos anos. Essa é uma tarefa urgente para a qual se espera a contribuição dos filósofos e teóricos contemporâneos. Os grandes sistemas filosóficos que surgiram na modernidade antecipavam as realizações da ciência e da tecnologia, o que muitas vezes lhes conferia certo tom futurológico. Por exemplo, nas obras de Descartes e de Leibiniz encontramos discussões às vezes pormenorizadas sobre as possibilidades de se construir autômatos pensantes, e isso ocorria na época em que a tecnologia podia oferecer no máximo bonecos movidos a corda. Hoje em dia tudo parece ocorrer ao contrário: a filosofia corre o risco de se fechar sobre seu próprio umbigo e aqueles que desenvolvem as novas tecnologias possivelmente o fazem sem saber exatamente os pressupostos teóricos e a visão do mundo que estariam defendendo.
Pensar esses objetos novos e as transformações sociais e antropológicas que eles trazem; assimilá-los ao universo da reflexão-eis o que se propõe Pierre Lévy no seu livro As Tecnologias da Inteligência. De leitura fluente e agradável, o livro de Pierre Lévy está dividido em três partes que podem ser lidas com razoável independência. A primeira desenvolve uma reflexão sobre o papel dos "hipertextos" (sistemas de indexação e organização de informação utilizando multimídia) nas sociedades e na educação; a segunda parte apresenta uma espécie de história genealógica de como os meios de comunicação (oral, escrita e depois impressa) moldaram ao longo da história tipos diferentes de organização das comunidades humanas.
Mas é na terceira parte do seu livro que Pierre Lévy concentra as reflexões mais originais e estimulantes: nela o autor propõe as bases para o desenvolvimento de uma nova disciplina, a ecologia cognitiva, que se dedica ao estudo sistemático da tecnologia informática na organização institucional das sociedades humanas. A história do processo civilizatório pode ser identificada, grosso modo, como o modo pelo qual a espécie humana gerou, através dos mais variados artifícios, uma espécie de segunda natureza na sua relação com o mundo. Essa segunda natureza passou a construir o meio ambiente efetivo no qual atuamos - uma segunda natureza que hoje em dia é preenchida predominantemente por redes complexas onde interagem um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Os seres e coisas não se encontram mais separados por uma cortina de ferro ontológica; esse amálgama de ser humano enquanto agente cognitivo, mundo e objetos tecnológicos constitui o objeto de estudo da ecologia cognitiva, concebida como "o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição." É nesse sentido que Pierre Lévy afirma que "não há nem razão pura nem sujeito transcedental invariável. Desde seu nascimento, o pequeno humano pensante se constitui através de línguas, de máquinas, de sistemas de representação que irão estruturar sua experiência".
A mesma linha de raciocínio segue a coletânea Imagem Máquina, organizada por André Parente e também publicada pela Editora 34. Os 22 artigos reunidos nesse livro contém uma extensa reflexão sobre a natureza da realidade virtual. O produto das novas máquinas de visão situa-se além da representação e da simulação: a realidade virtual leva-nos diretamente para o domínio da alucinação verídica. E o que pensar das realidades paralelas que passam a conviver com a "nossa realidade"? O abandono de uma tradição monoteísta acerca daquilo que chamamos "realidade" tem inúmeras conseqüências em vários domínios: filosófico, epistemológico, artístico e científico. É o exame dessas conseqüências que constitui a motivação da coletânea organizada por André Parente, que reúne várias contribuições de filósofos, sociólogos e teóricos da arte, destacando-se nomes famosos como Félix Gattari, Benoit Mandelbrot (o criador da geometria dos factais) e dos brasileiros Rogério Luz, Nelson Bissac Peixoto, Kátia Maciel e Julio Plaza.
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