Sobre Howard Gardner

howard_gardnerO livro de Howard Gardner, “A Nova Ciência da Mente”, publicado nos Estados Unidos em 1985 e que agora aparece traduzido para o português, tem por objetivo fornecer ao leitor um amplo e detalhado panorama de uma novíssima disciplina científica, a ciência cognitiva. Esta se constitui num campo de conhecimentos essencialmente interdisciplinar, recebendo contribuições da psicologia, da ciência da computação, da lingüística, da filosofia e da antropologia, numa tentativa de explicar a natureza da vida mental humana.

Neste livro, Gardner narra as origens deste enorme movimento teórico ocorrido nas últimas décadas, numa exposição não apenas histórica, mas também sistemática, uma vez que em várias ocasiões o autor procura as raízes filosóficas que motivaram o aparecimento e a consolidação da ciência cognitiva. Nestas passagens, evidenciam-se as dificuldades envolvidas em historiar esta nova ciência, “uma disciplina com um passado muito extenso mas com uma história relativamente curta” (pág 23).

A questão da natureza do conhecimento (cognição) remonta os primórdios do pensamento filosófico – e não é à toa que o livro começa recapitulando um diálogo platônico, o “Ménon”, “onde Sócrates interroga persistentemente um jovem escravo sobre seu conhecimento de geometria” (pág 19). Mas a ciência cognitiva, embora tratando de questões filosóficas tradicionais, introduz elementos e ferramentas novas na abordagem de questões epistemológicas.

Em primeiro lugar, a ciência cognitiva não pressupõe que questões filosóficas, sejam elas oriundas da epistemologia ou da filosofia da mente, possam ser tratadas e entendidas como isoladas da psicologia - abandona-se a proposta de uma filosofia primeira, daquele “lugar cósmico” a partir do qual elaboraríamos uma teoria do conhecimento essencialmente normativa. Este ponto de vista não apresenta problemas, exceto para aqueles que vêem como paradoxal o ser humano estudar sua própria natureza.

Em segundo lugar, a ciência cognitiva, desenvolvendo-se a partir da inteligência artificial, introduz o computador e a possibilidade de elaboração de modelos explicativos para aspectos específicos de uma ou outra atividade mental. A perspectiva de elaborar estes modelos computacionais leva, no limite, à idéia de que seria possível testar a validade de tais modelos, confrontando-os com a própria atividade mental humana sob estudo.

Este tipo de proposta -hoje amenizada- levou os teóricos da inteligência artificial a supor que poderiam desenvolver simulações que seriam réplicas perfeitas da mente humana. Este foi o chamado “período de ouro” da inteligência artificial, o período que se inicia com os Simpósios Hixon e de Darthmouth, culminando no do L.T. (Logic Theory Machine), um programa que podia demonstrar teoremas lógicos. Este “período de ouro” é muito bem apresentado no livro de Gardner, que na sua abordagem não esquece de mencionar alguns aspectos picarescos e anedóticos do surgimento da inteligência artificial - o que torna a leitura de seu texto particularmente agradável.

O relato da fundação da ciência cognitiva -que constitui sua história informal até o final dos anos 50- é seguido de uma análise do desenvolvimento e da influência da perspectiva cognitivista nas diversas disciplinas: na filosofia, na psicologia, na lingüística, na neurociência e na antropologia. Esta análise ocupa a segunda parte do livro de Gardner. Já a terceira parte é dedicada à descrição de alguns projetos teóricos desenvolvidos pela ciência cognitiva nas décadas de 70 e 80, nas suas diversas áreas de atuação: percepção (visão), imagens mentais, formação de conceitos etc. Esta exposição é seguida de um conjunto de reflexões e avaliações críticas da própria natureza do projeto científico da ciência cognitiva–uma inquietação que nunca deixa de transparecer no texto de Gardner.

É possível que a ciência cognitiva e seu braço principal, a inteligência artificial, não sejam importantes pelas suas realizações práticas ou possíveis aplicações cotidianas. Mas sua importância aparece na medida em que a partir dela os filósofos e psicólogos passam a ser forçados a examinar a própria natureza daquilo que estão fazendo. Para os filósofos, a inteligência artificial impõe a seguinte indagação: se um computador ou um robô puder simular nossas atividades mentais e se essas máquinas nada mais forem do que um determinado arranjo material (seja de válvulas ou de chips de silício) poderíamos concluir que para explicar o funcionamento da mente humana não precisamos postular a existência de uma outra substância, a mental, que seria completamente distinta da matéria.

Para os psicólogos, surge a esperança de um dia afastar a confusão conceitual que ronda o excesso de métodos experimentais hoje presentes nas suas investigações - ou seja, safar-se pelo menos parcialmente das ácidas críticas wittgensteinianas à própria possibilidade de se construir uma psicologia como ciência.

A tradução do livro de Gardner é de excelente qualidade: em momento algum uma comparação com o texto original revelaria qualquer lacuna ou erro de interpretação. Só há a lamentar o fato de que esta tradução tenha saído dez anos após a publicação do livro nos Estados Unidos. O que se apresenta como uma nova ciência da mente ou uma revolução teórica para o público brasileiro já é há muito tempo ciência normal no mundo desenvolvido.

  

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