Dois livros de Th. Nagel

tnagel[Originalmente publicado no jornal A Folha de S. Paulo, Caderno Mais, em junho de 2001 com o título "Assombrações da Pós-Modernidade"].

 

A bibliografia filosófica contemporânea em língua brasileira acaba de ganhar dois novos títulos. Depois da tradução de Daniel Dennett e John Searle agora é a vez de Thomas Nagel. Dentre os filósofos americanos vivos, Nagel é aquele que se caracteriza por remar contra a maré. Tornou-se famoso pelo seu artigo “O que é ser como um morcego”, publicado em 1974. Avesso ao materialismo e especialmente ao fisicalismo que dominam a filosofia da mente do século XX, Nagel defende a irredutibilidade da mente ao cérebro e a inefabilidade das experiências subjetivas. Estas escapariam da descrição do mundo feita pela ciência, num vocabulário essencialmente intersubjetivo.

 

Estes dois livros cuja tradução acaba de sair não adotam um ponto de vista muito diferente. Comecemos pela “Última Palavra”. A leitura de sua introdução deixa muito claro o projeto de Nagel: reinstaurar o primado da razão contra as filosofias relativistas, culturalistas e objetivistas. Trata-se de defender a razão, a racionalidade como bem supremo e transcendente contra todas as tentativas de reduzi-la a algum outro tipo de esfera, seja esta a cultura, a história ou a natureza, o que torna seu texto um arauto contra o relativismo em todas as suas formas. É preciso reinstaurar aquilo que Nagel chama de racionalismo, ou seja, a razão e o pensamento como instância julgadora que sobrevoa as contingências históricas e naturais que a cercam ou a produzem. Cabe à razão julgar a ciência e não vice-versa.

            Se o relativismo é o grande inimigo da universalidade da razão o mesmo se aplica ao naturalismo e a todas as tentativas de explicar a natureza do pensamento reduzindo-o às contingências históricas e naturais – uma tendência que tem caracterizado as filosofias pós-modernas. É preciso atacar filósofos como Quine, Rorty e outros que compõem o cenário filosófico contemporâneo, numa tarefa que por vezes se afigura quase hercúlea. Mostrar que a razão não pode ser explicada por nada fora dela mesmo constitui o eixo argumentativo dos primeiros capítulos de “A Última Palavra” nos quais Nagel percorre temas fundamentais da filosofia, tais como o papel da linguagem no pensamento, o estatuto dos raciocínios lógicos e do conhecimento humano. Capítulos que surpreendem o leitor pela sua clareza de argumentação e estilo.

            Para aqueles que se ocupam da filosofia da mente chama a atenção o último capítulo deste livro. Nele Nagel expressa sua antipatia pela psicologia evolucionária – para ele o último e mais recente arremedo do naturalismo. A psicologia evolucionária – ou psicologia darwinista – é hoje um forte movimento na filosofia da mente contemporânea que procura se utilizar das idéias de evolução e de seleção natural para explicar características e peculiaridades da racionalidade e da cognição humanas a partir de uma perspectiva biológica. Na última década este movimento se consolidou em vários centros universitários americanos e europeus, projetando os nomes de seus pioneiros John Tooby e Leda Cosmides.

            Nagel dispara seu ataque contra a psicologia evolucionária procurando mostrar que esta conduz a uma auto-contradição, ou seja, ao paradoxo típico do pensamento contemporâneo que erra ao incorrer na inversão de usar a ciência para explicar a natureza da razão, esquecendo-se que é desta que se origina e se constitui o próprio conhecimento científico. Se pudéssemos aplicar as idéias de Darwin para explicar a nossa racionalidade, teríamos de admitir que estas nada mais seriam do que um produto efêmero da história e da evolução biológica, o que solaparia sua confiabilidade como instrumento de explicação. Em outras palavras, aplicar as idéias darwinistas para explicar a natureza da mente e da cognição faz com que este tipo de estratégia sucumba ao seu próprio peso.

            A mente que produz a ciência não poderia ser explicada pela própria ciência: eis aqui, mais uma vez, a circularidade e a auto-contradição que estariam no seio de qualquer tentativa de explicar a razão por algo diferente dela. A psicologia evolucionária, como todo tipo de naturalismo, torna-se uma carga insuportável para si mesma, levando-nos a um beco sem saída. O psicólogo evolucionário seria como o asno trágico de Nietzsche que perece sob um fardo que não pode nem carregar nem rejeitar...

            Se cabe a nós reconhecer a primazia da razão sobre a ciência e sobre a história, é preciso que o façamos identificando um de seus melhores produtos: a reflexão filosófica. Este é o leit-motiv de “Uma breve história da filosofia”, uma obra que encanta o leitor por sua clareza e didatismo. Nela Nagel realiza uma verdadeira proeza: escrever um livro de introdução à filosofia que desperta nos iniciantes o prazer da reflexão. O livro é dirigido a estudantes universitários que nunca tiveram contato com filosofia no segundo grau: uma situação freqüente nos Estados Unidos e também no Brasil, o que o torna um item bibliográfico extremamente útil para nosso cenário acadêmico ainda carente de boas introduções ao pensamento filosófico contemporâneo.

            Em dez capítulos escritos de forma clara e sucinta, Nagel apresenta os principais problemas filosóficos da atualidade, percorrendo temas como a existência do mundo exterior e a possibilidade do conhecimento, a relação entre mente e cérebro, a questão das outras mentes, o estatuto dos problemas éticos e o significado da vida. A irredutibilidade da experiência subjetiva à linguagem da ciência é sugerida de forma sutil e elegante em várias passagens. Note-se também que em nenhum momento o leitor é sobrecarregado com o peso de citações ou com erudição desnecessária, o que sugere que para aprender filosofia não precisamos assumir o papel do asno trágico nietzscheano. Aprender filosofia é aprender a refletir a partir de problemas que nossa própria razão nos coloca, um caminho que está aberto a todos.

            Resta saber se após a leitura destes livros de Nagel estaremos convencidos de que ele deu a última palavra no que diz respeito ao problema mente-cérebro e às questões que cercam o debate acerca do pós-modernismo.  Quando li os textos deste filósofo pela primeira vez veio-me à lembrança a frase jocosa de meu colega Bento Prado Jr que dizia “filósofo materialista tem medo de assombração”.  Sem dúvida há um otimismo exagerado nas pretensões do naturalismo contemporâneo, fortemente influenciado pelo desenvolvimento da neurociência na década do cérebro.

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