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[publicado no Caderno Mais do jornal Folha de S. Paulo, sob o título "A seleção natural da sintaxe" em agosto de 2002].
Falar sobre linguagem pode se tornar uma tarefa bastante estranha. Afinal de contas, estamos confinados na nossa própria linguagem e não podemos falar dela a não ser usando-a, ou seja, falar sobre como ela funciona já a pressupõe. Tentar traçar suas origens, ou seja, contar a história de sua aparição também só pode ser feito por alguém que já possua alguma linguagem. Usar a linguagem para falar dela ou para montar uma história de suas origens pode se tornar apenas um exercício de imaginação, pois sua aparição não foi precedida por nenhum tipo de fóssil lingüístico ou pré-lingüístico que poderíamos um dia descobrir. Tudo se passa como se estivéssemos num pequeno bote em alto mar, sem poder desmontá-lo para saber como foi construído.
Falar das origens da linguagem e de como ela funciona é a tarefa a qual se propõe Steven Pinker, neste livro que acaba de ser traduzido. O autor é um jovem pesquisador do departamento de ciência cognitiva e neurociência do MIT. Um homem que impressiona pelo seu trajar quase sempre em negro e pelos seus cabelos armados, o que lhe confere por vezes um ar de príncipe russo. Isto sem falar de sua eloqüência, também impressionante, que tive oportunidade de presenciar numa palestra na Universidade Harvard em 1998. Pinker foi discípulo de seu colega no MIT, Noam Chomsky, este Galileu da lingüística, hoje mais conhecido por suas opiniões irreverentes acerca da sociedade globalizada. Como bom discípulo, soube manter sua independência intelectual, discordando do mestre em alguns pontos cruciais.
O grande mérito de Chomsky foi mostrar que os processos pelos quais geramos e identificamos sentenças têm uma estrutura profunda, a estrutura de uma árvore, com seu tronco e ramos e que gerar sentenças não é apenas alinhar sons ou símbolos. Seu livro clássico, Estruturas Sintáticas, publicado em 1957, investiga a natureza destas estruturas, analisando os possíveis algoritmos para gerar e reconhecer sentenças nas linguagens naturais. Chomsky nunca se arriscou a identificar estas estruturas com algum tipo de circuito cerebral, limitando-se apenas a sugerir que elas seriam, de alguma forma, inatas.
Pinker concorda com o inatismo de Chomsky, mas, contra o mestre, sustenta que a investigação da natureza da linguagem não pode se limitar a uma análise de estruturas e sistemas formais. A gramática é um sistema normativo, mas deve ser vista como um fenômeno natural, biológico. A linguagem é um produto da evolução, um fator decisivo que nos diferencia de todos os outros seres vivos. Possuímos essas estruturas inatas ou essa gramática universal e esta está no nosso cérebro, sendo o resultado de um longo processo evolucionário ao qual a espécie humana esteve submetida. Nossa faculdade lingüística, ou estas estruturas da gramática universal são, para usar os termos de Pinker, “instintivas”, nossa linguagem é essencialmente um instinto de nossa espécie. “Sabemos falar da mesma maneira que as aranhas sabem tecer suas teias” (p. 10). Ou, para invocar ainda outra passagem Pinker nos diz que “a sintaxe é um órgão darwiniano, extremamente perfeito e complicado” (p. 148). Neste sentido, ele teria dado um passo além de seu mestre, ao fazer considerações acerca da origem e da razão de ser dessas estruturas que os lingüistas têm copiosamente se dedicado a descrever, valendo-se de uma explicação através dos processos de seleção natural.
Estas afirmações – ao que pese serem corretas ou não – têm o mérito de ressaltar a necessidade da lingüística se tornar, cada vez mais, uma investigação interdisciplinar. Uma ciência da linguagem tem de se situar no cruzamento entre psicologia, a neurociência, a biologia evolucionária e a própria teoria lingüística. A ciência da linguagem não pode se limitar a ser uma análise empírico-formal das estruturas profundas subjacentes aos fenômenos lingüísticos. Ou seja, é preciso retomar a conhecida sentença de Roman Jakobson, que dizia que o trabalho do lingüista não pode e nem deve ser alheio às investigações que se realizam em todas as suas áreas afins. Algo que soa hoje como um eufemismo, mas que ainda encontra muita resistência em alguns meios acadêmicos de orientação chomskyana. Uma situação quase paradoxal, se considerarmos que Chomsky é freqüentemente lembrado como um dos pais da ciência cognitiva, um empreendimento científico que, nas últimas décadas, caracterizou-se como essencialmente interdisciplinar.
Outro mérito de Pinker é o fato de seu texto proporcionar ao leitor universitário uma visão geral da lingüística, além de uma introdução a tópicos importantes da ciência cognitiva e da biologia evolucionária. Usando um estilo coloquial Pinker nos arrasta por esta aventura fascinante, percorrendo temas como a gramática gerativa, léxico, morfologia, fonética e outros. Há também capítulos acerca da aquisição da linguagem, suas bases biológicas (genética e ontogenética) e sua evolução. O capítulo VII (Cabeças Falantes), que discute a possibilidade de automatizar alguns aspectos da linguagem natural é particularmente instigante para aqueles que se interessam por inteligência artificial e suas possíveis aplicações na área de processamento lingüístico.
Resta saber se podemos concordar integralmente com as teses de Pinker. Terá ele, ao tentar naturalizar a teoria de Chomsky - mesclando-a com teoria da evolução e seleção natural - dado um passo além no sentido de desvendar a origem de nossas faculdades lingüísticas? O que terá surgido primeiro, a linguagem ou a evolução? Seria possível formular algo como a teoria da evolução sem usar algum tipo de linguagem? Não estaríamos andando em círculos ao afirmar que a evolução selecionou a linguagem e que, ao mesmo tempo, foi a partir da linguagem que pudemos falar de evolução? Pois não será a teoria evolucionária apenas uma grande e genial metáfora a partir da qual pudemos organizar e buscar alguma compreensão de nosso possível passado filogenético? Esta parece ser uma pergunta inevitável a ser formulada para aqueles que lêem este livro com olhos filosóficos.
Resenha publicada na Folha de São Paulo
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